Fugi. Saí. Menti. Faltei. Voltei?
Como é que foi possível? Parece que sou mesmo capaz de algo que ainda não tenho a noção que fiz. Parece que estou fechada numa certa bola de sabão, todo o ser me vê e ouve, ninguém me conhece, eu posso ver tudo, posso ouvir, mas não compreendo, nem quero compreender. Sinto-me mais perdida, e mais e mais. Perdida entre ondas do meu constante pensamento que parece nunca fatigar. Que posso fazer após ver tantos círculos perfeitos desenhados pelos ponteiros dentro do mostrador do relógio. Qual será o nome que eu posso dar ao novo estado de alma sacudido pelo vento que as ondas do corpo da Mãe constroem.
Aquilo que me faz querer tudo com nome de perfeição, aquilo que me faz querer desistir quando a vontade de te ter é ainda maior.. Preciso de dar um nome a tudo isto que me deixaste. Mas não o encontro. As raízes que prendem a minha alma ao teu corpo são demasiado fortes para a acabar com a nossa música. Acho-te inevitavelmente lindo e melodioso. Melhor que tudo, acho-te meu. Preocupo-me com o teu corpo sempre presente mas tão longe do que me define constante. Será suficiente dizer que me preocupo? Talvez não, mas a verdade é essa. Sempre me preocupei com o nosso coração. Sempre nos amei por sermos um corpo sem alma e uma alma sem corpo que juntos davam um coração que carregava mais do que música, mais do que amor. Era tão bom saber que te tinha, meu anjo. Agora vejo-te tão longe. E tu parece que não me vês, ou talvez seja eu que não quero que me vejas. Eu não quero que me vejas como alguém perdido. Não quero que repares na minha alma que vai divagando perdida no meio do pó da vida que lhe deram. Porque tenho vida? Porque me deram vida? Pensei que fosse para ser amada por ti, meu anjo. Afinal não. Afinal para que foi? Tenho saudades do nosso coração. Há aquela saudade de te ouvir, de beijar os teus lábios e encostar a minha testa à tua, fechar os olhos, abri-los e ver-te sorrir.
Porque caem lágrimas quando me lembro da coisa mais bonita que aconteceu na minha vida? O teu sorriso por mim. E vou ficar aqui sentada, deitada, conforme. À espera que o meu amor por ti seja levado pelos ponteiros do relógio. O mal é que esse ponteiro vai voltar, como sempre. Meu anjo.
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